Texto do Sermão proferido na Paróquia Martin Luther, pelos 70 anos da imigração Teuto-Russa. Porto Alegre, 06/ago/2000, pelo Pastor Alfredo Gutjahr
Texto revisado por Patrícia Gutjahr,
filha.
Não sabemos ao certo
as causas que levaram, em 1763, os alemães da região de Baden-Württemberg (sul
da Alemanha) a abandonarem a sua terra natal e emigrarem para as regiões
férteis das planícies do rio Volga e da região de Wollynien, na Rússia. Uns
alegam ter sido a procura por terra, motivada pela proposta irrecusável feita
por Katharina II, uma princesa alemã, que ocupava o trono da monarquia dos
Czares na Rússia. Outros afirmam que a causa tenha sido motivos religiosos. Os
luteranos queriam viver num país, no qual pudessem praticar livremente as suas
convicções religiosas.
50 anos depois, em
1812-13 sob o reinado do Czar Alexandre I, foi feito um segunda chamado ao povo
alemão da Prússia (aqui incluo os meus antepassados, tanto paternos, quanto
maternos) e das Províncias de Posen, Pomerânia e de Mecklenburg, com as mesmas
propostas anteriormente feitas por Katharina II. Com estes imigrantes, na sua
maioria luterana, menonitas, pietistas e católicos, iniciou-se a colonização do
sul da Rússia, nas regiões da Ucrânia e da Criméia. Diz-se que da mesma forma a
emigração se deu por motivos religiosos confessionais.
Oitenta anos depois,
em 1892 (Alexandre III), todas as colônias alemãs foram
"russificadas", isto quer dizer: perderam a isenção de impostos, a
isenção militar e nas escolas, além da língua alemã que vinha sendo
administrada, introduziu-se também a língua russa. Esta adaptação, devido aos
longos anos de vivência em solo russo, foi assimilada sem traumas.
Com o constante
aumento da população, no começo do século 20, o monstro chamado falta de terra
começou a rondar também a Rússia. Assim, em 1905, o governo decidiu colonizar
as vastas estepes da Sibéria. Embora a Sibéria fosse até então conhecida e
temida apenas como região de desterro e de trabalho forçado (nas minas de
carvão) imposto aos infratores da lei, as suas imensas planícies eram favoráveis
à agricultura e à criação de gado. Levas e mais levas de russos e descendentes
de imigrantes alemães de todas as regiões do Wolga, de Wollynien, da Ucrânia e
da Criméia rumaram para o sul da Sibéria, a algumas centenas de km da fronteira
com a China, tendo como centro referencial de comércio a cidade de Slawgorod.
Lá se estabeleceram
em aldeias, não muito distantes umas das outras, construíram as suas igrejas,
as escolas, contrataram professores. Os feriados religiosos eram guardados e
exaustivamente comemorados. Embora morassem em aldeias separadas, os luteranos,
os menonitas, os católicos e os pietistas visitavam-se mutuamente, negociavam
entre si, respeitavam-se e praticavam, pacificamente, a política da boa
vizinhança. As terras não lhes foram doadas pelo governo, compraram-na. Embora
o inverno fosse longo e rigoroso, prosperaram devido às excelentes colheitas de
trigo e as abundantes pastagens para os rebanhos de gado e de ovelhas.
Em 1914 irrompeu a
primeira guerra mundial. A guerra ainda não havia acabada quando, em 1917, a
Rússia mergulhou em uma impiedosa e sangrenta revolução interna. A monarquia
dos Czares foi deposta e assassinada. O comunismo tomou o poder. Com ele, o
medo e o terror alastraram-se por todo território russo. Os comunistas usavam a
bandeira da Revolução Francesa pregando liberdade, igualdade e fraternidade,
prometendo ao povo o paraíso e o céu na terra. Não é de estranhar que também
filhos de descendentes alemães abraçaram esta causa e engrossaram as suas
fileiras. Mas não tardou para se conscientizarem que estas promessas não
passavam de um engodo e de uma grande mentira. Os comunistas declararam guerra
contra a religião e contra o patrimônio. O paraíso prometido tornou-se um
inferno. Profundamente decepcionados, os nossos pais tiveram que aguentar
calados o ódio e a ferrenha perseguição empreendida contra a Igreja. Logo
contra eles, que no passado abandonaram a sua pátria para emigrarem para um
país onde pudessem praticar livremente a sua confissão, a qual, através dos
séculos, cultivou com amor e dedicação, nas igrejas, nas escolas e em suas
famílias, visando transmiti-la inalterada aos seus descendentes. Cheios de
tristeza tiveram que assistir seus conceitos cristãos serem desprezados,
ridicularizados e, como se isso não bastasse, eles próprios, pelo fato de
pertencerem a um credo religioso, serem declarados inimigos do poder.
As igrejas foram
fechadas. Muitas escolas foram arrancadas, e em seu lugar foram construídas
creches. Os pais tiveram que assistir, sem nada poder fazer, aos seus filhos
serem alienados dos princípios cristãos e serem doutrinados no regime
comunista-marxista. Esta situação tornou-se insuportável e, a longo prazo,
insustentável. As suas propriedades foram invadidas, saqueadas e
desapropriadas. De proprietários passaram a operários, para não dizer escravos,
nas granjas coletivas, as assim chamadas colcozes, ou kommunas. A sua autoestima
e o seu orgulho de agricultores livres foi ferido ao extremo. Por isso, hoje,
todo movimento seja ele político, religioso ou social, que tem por objetivo a
invasão e a desapropriação, encontra nos descendentes destes imigrantes uma
grande resistência e um alto e sonoro não. Quem sentiu na própria pele entende
melhor a dor que esta injustiça causa. Somos contra o acúmulo de terra, cuja
finalidade é a especulação, mas entendemos que liberdade tem algo a ver com
propriedade, ou melhor, que as duas coisas andam juntas e são inseparáveis.
Visto deste prisma podemos afirmar, (esta afirmação não é minha, podemos
encontrá-la na revista VEJA, do dia 09 de fevereiro de 2000, página 57):
"O comunismo foi um equívoco ideológico que produziu uma catástrofe
humana", jogando na miséria, material e espiritual, milhões de seres
humanos. Escutando no sábado passado, 29 de julho de 2000, a VOZ das AMÉRICAS,
noticiou-se que o atual Presidente da Rússia, Wladimir Putin, baixou um Decreto
tornando obrigatório o ensino religioso em todas as escolas russas. Temos a
impressão que não apenas a Natureza se vinga, quando o homem dela abusa, mas
também a História.
Mais e mais a vontade
de abandonar a Rússia foi crescendo, e secretamente alastrou-se como uma
epidemia entre os descendentes alemães. Sair deste inferno e desta prisão, na
qual eles se sentiam inseridos. Emigrar! Sim, emigrar. Um mundo de preocupações,
de incertezas, mas também de esperanças encerra-se nesta palavra. Significa
despedida da pátria, da terra, da horta e do quintal, do bezerro no curral; da
velha macieira que o avô ainda havia plantado. É a separação da família, de
parentes e de amigos, para ir ao encontro do desconhecido, colocando em jogo a
sua sobrevivência, mais do que isto, colocando em jogo a sua própria
existência. Conseguiram sair via Moscou aproximadamente 5000 pessoas; milhares
não conseguiram sair e tiveram que voltar para o lugar de origem. Os pais que
resistiam eram presos e levados para os campos de trabalho forçado. Os seus
familiares nunca mais tiveram notícia deles. De Moscou para Riga, a capital da
Letônia, de lá para Hammerstein, na Alemanha, onde ficaram alojados e receberam
documentos alemães; do porto de Hamburg para a Ilha das Flores, no Rio de
Janeiro; do Rio para Porto Alegre, para Santa Bárbara do Sul. De lá, 251
famílias luteranas para Iracema, Mondaí, SC e 84 famílias católicas para
Aguinhas, São Carlos, SC. Muitos conseguiram fugir pela China, onde a fronteira
era mal guarnecida.
Aqui, no meio do
mato, o duro trabalho de começar tudo de novo, com o peito oprimido pela
saudade da pátria, amada como mãe, mas que lhes fora madrasta. Em uma de minhas
viagens de Florianópolis para Iraí, passei por São Carlos e procurei o Sr. Nicolai
Beirith. Através do seu filho Rudolf eu fiquei sabendo que o seu pai Nicolai
reatara a correspondência com o seu irmão que havia ficado na Sibéria. Para ele
dirigi-me solicitando que escrevesse para o seu irmão e perguntasse se o
sobrenome Gutjahr ainda existia na Sibéria. Após as nossas tratativas, ele
perguntou-me para onde iria. Respondi-lhe que iria para Irai, a minha terra
natal. Lá queria ver as laranjeiras e as bergamoteiras nas quais trepava quando
menino para saborear os seus deliciosos frutos! Aquelas “laranja de umbigo”,
iguais, nunca mais encontrei. Enquanto eu ia relatando, o Sr. Beirith desatou a
chorar. Eu não entendi o que se passava. Quando perguntei se lhe pudesse ajudar
em algo, ele fez um sinal com a mão, como quem diz: Espere! Quando a sua emoção
havia passado e ele havia enxugado as suas lágrimas, olhou para mim e disse:
"Tu és uma pessoa feliz, pois tu podes voltar para a tua terra natal e ver
como tudo foi e era, mas eu vou morrer e a mim isto não é permitido".
Naquele momento entendi o que significa ter um torrão natal, no qual se nasceu
e no qual se ensaiou os primeiros passos e para o qual se pode retornar quando
a saudade apertar.
Longe, para sempre,
do restante dos familiares e dos amigos, a dor da saudade comprimia o peito e
cortava a alma. Chorar silenciosamente, no travesseiro ou no canto da cabana,
era a única expressão secretamente permitida. Só restava trabalhar duro, para esquecer
a saudade e construir do nada uma nova pátria. Trocaram as imensas planícies
pelo mato e pelos morros. A neve e o frio de 30 - 40 graus negativos pelo calor
sufocante do verão. As casas aconchegantes pelas cabanas cobertas de taquara e
de folhas de palmeiras, tendo por assoalho o chão batido e por companhia os
mosquitos, as aranhas e as formigas. Porém, satisfeitos! por estarem livres! E
sobreviveram! Não tenho conhecimento que algum deles tivesse enveredado pelo
caminho do crime e da contravenção penal, graças ao seu caráter e aos seus
princípios éticos e morais. Com suor e espírito comunitário, construíram casas,
em mutirão fizeram roças, construíram igrejas e escolas. -- Eu tinha de 9 para
10 anos e frequentava a Escola Evangélica Divino Mestre em Iraí. O Pastor de
então, Manfredo Hasenack, hoje aposentado e morando em São Leopoldo, incumbiu
os alunos para empreenderam uma campanha em favor da Obra Gustavo Adolfo. Eu
cheguei na residência de um destes teuto-russos e ofereci a campanha. O chefe
da família não mostrou muito interesse; eu fiquei sabendo mais tarde que ele
havia economizado os seus trocados para comprar uma carroça nova. Sua esposa,
porém, uma senhora muito ativa e bem quista, disse: "Nós vamos colaborar,
sim, pois, a igreja e a escola a gente sempre deve ajudar. A escola educa e a
igreja mostra o caminho".
Pela fé em Deus, eles
suportaram as adversidades, contribuindo por onde passaram econômica, política,
religiosa e socialmente, legando aos seus descendentes um futuro melhor.






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