Bem-vindo ao blog da Família Figur

Está versão é preliminar. Falta acrescentar a este trabalho mapas, fotografias os documentos ainda disponíveis.

Meu Berço, Livro da Família Figur

Em 20 de outubro recebi a visita do Senhor Alberto Figur, filho de Ervino Albino Figur, que reside no Bairro Czerniewicz, em Jaraguá do Sul (SC).

Histórias, fantasias e sonhos da Família Figur

“Prejuízos materiais podem ser recuperados; dores morais, o tempo remedeia, só um dano é irreparável: quando o homem se perde a si mesmo”. John Müller- Em memória aos nossos antepassados! Para estímulo nosso! Para o bom da nossa pátria (família) = Lema de 25 de Julho.

A vida religiosa dos Teusto-russos (parte 2)

A impressão que se tem a respeito da vida religiosa dos povos da Rússia é de que os povoados e vilas se compunham apenas de luteranos, poucas congregações católicas romanas e alguns aglomerados batistas.

A vida religiosa dos Teusto-russos

A vida religiosa era parte da constituição da aldeia onde só permitia-se uma única confissão ou religião.

Encontro da Família figur

No dia 18 de janeiro de 2015 aconteceu mais um encontro da Família Figur em Veranópolis, Rio Grande Do Sul, no Recanto Medianeira.
 











Contexto Histórico Por Trás da Imigração de Nossos Antepassados

Texto do Sermão proferido na Paróquia Martin Luther, pelos 70 anos da imigração Teuto-Russa. Porto Alegre, 06/ago/2000, pelo Pastor Alfredo Gutjahr

Texto revisado por Patrícia Gutjahr, filha.

Não sabemos ao certo as causas que levaram, em 1763, os alemães da região de Baden-Württemberg (sul da Alemanha) a abandonarem a sua terra natal e emigrarem para as regiões férteis das planícies do rio Volga e da região de Wollynien, na Rússia. Uns alegam ter sido a procura por terra, motivada pela proposta irrecusável feita por Katharina II, uma princesa alemã, que ocupava o trono da monarquia dos Czares na Rússia. Outros afirmam que a causa tenha sido motivos religiosos. Os luteranos queriam viver num país, no qual pudessem praticar livremente as suas convicções religiosas.

Na época muitos outros países necessitavam de imigrantes. Os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e as Américas. Mas nenhum país fizera proposta melhor do que Katharina II, que ocupou o trono durante 33 anos. Assim, 27.000 alemães, atendendo o seu chamado, emigraram para a Rússia, sem impedimento algum de documento ou burocracia alfandegária que pudesse dificultar a sua entrada. As facilidades não pararam por aí. Foi-lhes doado a terra como propriedade; foi-lhes concedido isenção de impostos; foi-lhes oferecido auxílio financeiro para custear o início das atividades; aos imigrantes e aos seus descendentes foi concedida isenção do serviço militar. Além disso, foi-lhes assegurada plena liberdade religiosa sendo permitido construir as suas igrejas e escolas; também lhes foi garantido o direito inviolável de cultivarem a sua língua materna, os seus costumes e as suas tradições. Os imigrantes alemães corresponderam a estes privilégios e a estas vantagens e prosperaram rapidamente. Sentiam-se felizes, acolhidos e valorizados em sua nova pátria.
50 anos depois, em 1812-13 sob o reinado do Czar Alexandre I, foi feito um segunda chamado ao povo alemão da Prússia (aqui incluo os meus antepassados, tanto paternos, quanto maternos) e das Províncias de Posen, Pomerânia e de Mecklenburg, com as mesmas propostas anteriormente feitas por Katharina II. Com estes imigrantes, na sua maioria luterana, menonitas, pietistas e católicos, iniciou-se a colonização do sul da Rússia, nas regiões da Ucrânia e da Criméia. Diz-se que da mesma forma a emigração se deu por motivos religiosos confessionais.
Oitenta anos depois, em 1892 (Alexandre III), todas as colônias alemãs foram "russificadas", isto quer dizer: perderam a isenção de impostos, a isenção militar e nas escolas, além da língua alemã que vinha sendo administrada, introduziu-se também a língua russa. Esta adaptação, devido aos longos anos de vivência em solo russo, foi assimilada sem traumas.
Com o constante aumento da população, no começo do século 20, o monstro chamado falta de terra começou a rondar também a Rússia. Assim, em 1905, o governo decidiu colonizar as vastas estepes da Sibéria. Embora a Sibéria fosse até então conhecida e temida apenas como região de desterro e de trabalho forçado (nas minas de carvão) imposto aos infratores da lei, as suas imensas planícies eram favoráveis à agricultura e à criação de gado. Levas e mais levas de russos e descendentes de imigrantes alemães de todas as regiões do Wolga, de Wollynien, da Ucrânia e da Criméia rumaram para o sul da Sibéria, a algumas centenas de km da fronteira com a China, tendo como centro referencial de comércio a cidade de Slawgorod.
Lá se estabeleceram em aldeias, não muito distantes umas das outras, construíram as suas igrejas, as escolas, contrataram professores. Os feriados religiosos eram guardados e exaustivamente comemorados. Embora morassem em aldeias separadas, os luteranos, os menonitas, os católicos e os pietistas visitavam-se mutuamente, negociavam entre si, respeitavam-se e praticavam, pacificamente, a política da boa vizinhança. As terras não lhes foram doadas pelo governo, compraram-na. Embora o inverno fosse longo e rigoroso, prosperaram devido às excelentes colheitas de trigo e as abundantes pastagens para os rebanhos de gado e de ovelhas.
Em 1914 irrompeu a primeira guerra mundial. A guerra ainda não havia acabada quando, em 1917, a Rússia mergulhou em uma impiedosa e sangrenta revolução interna. A monarquia dos Czares foi deposta e assassinada. O comunismo tomou o poder. Com ele, o medo e o terror alastraram-se por todo território russo. Os comunistas usavam a bandeira da Revolução Francesa pregando liberdade, igualdade e fraternidade, prometendo ao povo o paraíso e o céu na terra. Não é de estranhar que também filhos de descendentes alemães abraçaram esta causa e engrossaram as suas fileiras. Mas não tardou para se conscientizarem que estas promessas não passavam de um engodo e de uma grande mentira. Os comunistas declararam guerra contra a religião e contra o patrimônio. O paraíso prometido tornou-se um inferno. Profundamente decepcionados, os nossos pais tiveram que aguentar calados o ódio e a ferrenha perseguição empreendida contra a Igreja. Logo contra eles, que no passado abandonaram a sua pátria para emigrarem para um país onde pudessem praticar livremente a sua confissão, a qual, através dos séculos, cultivou com amor e dedicação, nas igrejas, nas escolas e em suas famílias, visando transmiti-la inalterada aos seus descendentes. Cheios de tristeza tiveram que assistir seus conceitos cristãos serem desprezados, ridicularizados e, como se isso não bastasse, eles próprios, pelo fato de pertencerem a um credo religioso, serem declarados inimigos do poder.
As igrejas foram fechadas. Muitas escolas foram arrancadas, e em seu lugar foram construídas creches. Os pais tiveram que assistir, sem nada poder fazer, aos seus filhos serem alienados dos princípios cristãos e serem doutrinados no regime comunista-marxista. Esta situação tornou-se insuportável e, a longo prazo, insustentável. As suas propriedades foram invadidas, saqueadas e desapropriadas. De proprietários passaram a operários, para não dizer escravos, nas granjas coletivas, as assim chamadas colcozes, ou kommunas. A sua autoestima e o seu orgulho de agricultores livres foi ferido ao extremo. Por isso, hoje, todo movimento seja ele político, religioso ou social, que tem por objetivo a invasão e a desapropriação, encontra nos descendentes destes imigrantes uma grande resistência e um alto e sonoro não. Quem sentiu na própria pele entende melhor a dor que esta injustiça causa. Somos contra o acúmulo de terra, cuja finalidade é a especulação, mas entendemos que liberdade tem algo a ver com propriedade, ou melhor, que as duas coisas andam juntas e são inseparáveis. Visto deste prisma podemos afirmar, (esta afirmação não é minha, podemos encontrá-la na revista VEJA, do dia 09 de fevereiro de 2000, página 57): "O comunismo foi um equívoco ideológico que produziu uma catástrofe humana", jogando na miséria, material e espiritual, milhões de seres humanos. Escutando no sábado passado, 29 de julho de 2000, a VOZ das AMÉRICAS, noticiou-se que o atual Presidente da Rússia, Wladimir Putin, baixou um Decreto tornando obrigatório o ensino religioso em todas as escolas russas. Temos a impressão que não apenas a Natureza se vinga, quando o homem dela abusa, mas também a História.
Mais e mais a vontade de abandonar a Rússia foi crescendo, e secretamente alastrou-se como uma epidemia entre os descendentes alemães. Sair deste inferno e desta prisão, na qual eles se sentiam inseridos. Emigrar! Sim, emigrar. Um mundo de preocupações, de incertezas, mas também de esperanças encerra-se nesta palavra. Significa despedida da pátria, da terra, da horta e do quintal, do bezerro no curral; da velha macieira que o avô ainda havia plantado. É a separação da família, de parentes e de amigos, para ir ao encontro do desconhecido, colocando em jogo a sua sobrevivência, mais do que isto, colocando em jogo a sua própria existência. Conseguiram sair via Moscou aproximadamente 5000 pessoas; milhares não conseguiram sair e tiveram que voltar para o lugar de origem. Os pais que resistiam eram presos e levados para os campos de trabalho forçado. Os seus familiares nunca mais tiveram notícia deles. De Moscou para Riga, a capital da Letônia, de lá para Hammerstein, na Alemanha, onde ficaram alojados e receberam documentos alemães; do porto de Hamburg para a Ilha das Flores, no Rio de Janeiro; do Rio para Porto Alegre, para Santa Bárbara do Sul. De lá, 251 famílias luteranas para Iracema, Mondaí, SC e 84 famílias católicas para Aguinhas, São Carlos, SC. Muitos conseguiram fugir pela China, onde a fronteira era mal guarnecida.
Aqui, no meio do mato, o duro trabalho de começar tudo de novo, com o peito oprimido pela saudade da pátria, amada como mãe, mas que lhes fora madrasta. Em uma de minhas viagens de Florianópolis para Iraí, passei por São Carlos e procurei o Sr. Nicolai Beirith. Através do seu filho Rudolf eu fiquei sabendo que o seu pai Nicolai reatara a correspondência com o seu irmão que havia ficado na Sibéria. Para ele dirigi-me solicitando que escrevesse para o seu irmão e perguntasse se o sobrenome Gutjahr ainda existia na Sibéria. Após as nossas tratativas, ele perguntou-me para onde iria. Respondi-lhe que iria para Irai, a minha terra natal. Lá queria ver as laranjeiras e as bergamoteiras nas quais trepava quando menino para saborear os seus deliciosos frutos! Aquelas “laranja de umbigo”, iguais, nunca mais encontrei. Enquanto eu ia relatando, o Sr. Beirith desatou a chorar. Eu não entendi o que se passava. Quando perguntei se lhe pudesse ajudar em algo, ele fez um sinal com a mão, como quem diz: Espere! Quando a sua emoção havia passado e ele havia enxugado as suas lágrimas, olhou para mim e disse: "Tu és uma pessoa feliz, pois tu podes voltar para a tua terra natal e ver como tudo foi e era, mas eu vou morrer e a mim isto não é permitido". Naquele momento entendi o que significa ter um torrão natal, no qual se nasceu e no qual se ensaiou os primeiros passos e para o qual se pode retornar quando a saudade apertar.
Longe, para sempre, do restante dos familiares e dos amigos, a dor da saudade comprimia o peito e cortava a alma. Chorar silenciosamente, no travesseiro ou no canto da cabana, era a única expressão secretamente permitida. Só restava trabalhar duro, para esquecer a saudade e construir do nada uma nova pátria. Trocaram as imensas planícies pelo mato e pelos morros. A neve e o frio de 30 - 40 graus negativos pelo calor sufocante do verão. As casas aconchegantes pelas cabanas cobertas de taquara e de folhas de palmeiras, tendo por assoalho o chão batido e por companhia os mosquitos, as aranhas e as formigas. Porém, satisfeitos! por estarem livres! E sobreviveram! Não tenho conhecimento que algum deles tivesse enveredado pelo caminho do crime e da contravenção penal, graças ao seu caráter e aos seus princípios éticos e morais. Com suor e espírito comunitário, construíram casas, em mutirão fizeram roças, construíram igrejas e escolas. -- Eu tinha de 9 para 10 anos e frequentava a Escola Evangélica Divino Mestre em Iraí. O Pastor de então, Manfredo Hasenack, hoje aposentado e morando em São Leopoldo, incumbiu os alunos para empreenderam uma campanha em favor da Obra Gustavo Adolfo. Eu cheguei na residência de um destes teuto-russos e ofereci a campanha. O chefe da família não mostrou muito interesse; eu fiquei sabendo mais tarde que ele havia economizado os seus trocados para comprar uma carroça nova. Sua esposa, porém, uma senhora muito ativa e bem quista, disse: "Nós vamos colaborar, sim, pois, a igreja e a escola a gente sempre deve ajudar. A escola educa e a igreja mostra o caminho".
Pela fé em Deus, eles suportaram as adversidades, contribuindo por onde passaram econômica, política, religiosa e socialmente, legando aos seus descendentes um futuro melhor.



Educação e Instrução dos Filhos


Foi uma das maiores preocupações dos pais: com seis anos e idade já tínhamos que freqüentar a escola. O irmão mais velho, Alfredo, que não podia ir sozinho 8 km até a escola paroquial ficava na casa da avó durante o ano letivo. Quando o segundo irmão, o Helmuth, já podia ir à escola com seis anos, os dois iam diariamente até a escola percorrendo regularmente 8 Km, com tempo bom, com chuva, ou frio, ou geada não queria saber. Quando o terceiro, o Guilherme, que também foi um ano mais tarde, os pais e tios, eram quatro as famílias, construíram uma escolinha, onde o professor ministrava aulas à tarde, para 12 a 18 alunos, perto da casa. Um professor estrangeiro já desenvolvia as aulas na língua dos pais duas vezes por semana. Fazia o que podia, mas nós alunos sabíamos mais “brasileiro” do que ele. Um exemplo: quando um aluno perguntou “como a coruja entrou num pau oco”, ele primeiro consultou o dicionário em casa e no outro dia a resposta foi: “É uma expressão estranha; não é brasileira”. Mas conjugações e variações gramaticais eram muito bem ensinadas. As outras matérias como leitura, aritmética e conhecimentos gerais melhoraram muito.
Com seis anos o irmão Alfredo, como não podia ir sozinho até a escola 8 km sozinho, ficou na casa do avô para freqüentar a escola paroquial. Quando o segundo irmão Helmuth já podia ir à escola, cada dia os dois tinham que caminhar da escola até a vila. Também o terceiro filho, Guilherme, com seis anos cada dia deveria ir á escola, na maioria das vezes a pé, porque os cavalos eram ocupados para o trabalho na roça. Não importava chuva ou sol, tempo agradável, dias de frio ou geada, pois não eram motivos para ficar em casa e gazear as aulas.
O que ajudou foi o intercâmbio com outras pessoas e principalmente com os tropeiros que despertavam a curiosidade dos meninos querendo saber cada vez mais e aperfeiçoando a sua linguagem pela conversa. Mas o mais importante desde pequenos era a escrita e a leitura.
Não era somente isso que se aprendia na escola, mas em casa havia uma ordem rígida e bem programada, para que tudo fosse aproveitado e mais tarde pudesse ser de alguma serventia na vida. Desde os primeiros anos havia material de leitura, religiosos como o Kirchenblatt ou Lutheraner, ou Walther-Liga-Bote, mais tarde o Jovem Luterano (JELB), almanaquese anuários como Lutherkalender, Synodalberichte e o Jornal Die Serra Post, mais tarde o Correio Serrano. Não era simplesmente a presença desse material, mas o usoe a leitura do mesmo era o mais importante. Assim, que durante os anos escolares como depois pela leitura, todos os filhos adquiriram um bom lastro de conhecimento. A mãe, apesar de cuidar bem da família, sempre tinha tempo para a leitura e era bastante versada em história e conhecimento geral. Talvez fosse a mulher mais lida e informada na região toda.
O LEMA NA EDUCAÇÃO: Além de um conhecimento teórico, o que vale é o prático na vida. Assim os meninos, que eram os mais velhos, desde pequenos aprenderam que, se sabem sujar roupa, devem saber também lavar a mesma. Todos deviam aprender a arte doméstica, isto é, remendar roupa, cozinhar, assar pão, saber carnear porcos e galinhas etc. Pois somente era repetido: vocês não sabem o que vocês podem precisar no futuro e é bom quando vocês já aprenderam isto em casa. Mais tarde, quando maiores e as futuras noras os viessem visitar, todos deveriam ajudar na cozinha onde ouviam certos conselhos, ditos assim, meio por acaso, como: “Comida gostosa na mesa e cama fofa mantém a família unida” ou “Quem não souber fazer bem o serviço caseiro não pode mandar fazer melhor”, ou “Asseio e ordem em casa é o melhor convite para as visitas”, entre outros. Antes dos filhos aprenderem um oficio ou profissão deveriam demonstrar que eram colono, agricultor que soubesse lavrar, plantar, colher e tratar os animais devidamente. O Pai Gottlieb lamentou muitas vezes que ele não teve a oportunidade de aprender o oficio de que gostava, mas também não disse qual seria.
Ele recomendava aos filhos: “Aprendam a ser bons agricultores porque, se depois vocês não se derem bem na profissão que escolheram o Brasil ainda tem bastante terra para vocês se sustentarem como colonos. E ninguém me diga que não tenha aprendido a profissão mais nobre, que é a de ser agricultor”.
         A CEGONHA: Uma visita, vendo tantas boquinhas ao redor e todos sadios e querendo se tornar nteressante perguntou, quandoa mesa foi posta: “Certamente a cegonha gostou de vir aqui muitas vezes para trazer tantas crianças?” Mamãe Lidia não titubeou na resposta: “sim, a cegonha vinha regularmente aqui; nós escolhemos sempre as crianças mais sadias, fortes, inteligentes e voluntariosas e mandamos a cegonha levar as outras menos inteligentes, preguiçosas, defeituosas e trouxinhas para distribuir do outro lado dos montes. Mas as nossas nasceram em casa e não precisavam de cegonha”. O “engraçadinho” um pouco desnorteado logo começou outra conversa. ORDEM E OBEDIÊNCIA ERA LEI!
         Mamãe Lidia tinha como lema: “Mais dinheiro para o padeiro do que para o médico”. Quando as crianças se tornavam mais crescidas, procura a dar uma orientação mais acurada a respeito da vida familiar dizendo e repetindo muitas vezes? “Um alimento sadio e nutritivo, trabalho regular e cama fofa conservam a família mais unida.”
Observando a descendência de Gottlieb e Lidia Jubin Figur, relativamente às suas atividades e profissões, apresenta-se um quadro bastante diversificado. Vejamos: pastores, professores, técnicos agrícolas, carpinteiros, marceneiros, decoradores, mecânicos, torneiros mecânicos, eletricistas, técnicos em contabilidade, técnicos em serviços de escritório e de administração, advogados, secretários, bancários, agricultores e horticultores, inclusive muitos sem terra, militares, funcionários públicos e burocráticos, entre outras profissões.
Primeiro a Roça: A divisa do pai era: antes de aprender um oficio, todos os filhos deveriam conhecer os serviços da roça. Ele dizia: “Se alguém é tão atrasado que não pode saber fazer o serviço da roça também não é capaz de aprender um oficio. Se aprender o oficio e não der certo, sempre resta muita terra no Brasil para agricultura. Que nenhum filho meu venha me acusar de que não ensinei a profissão mais rudimentar, mas de melhor subsistência”.
Dos doze filhos, apenas três ficaram na roça. Todos os outros aprenderam ofícios ou profissões rendosas para garantir-lhes a vida, mas sempre honestas.
O motivo de tal atitude, como ele muitas vezes lamentava, era: “eu não tive a oportunidade de aprender o oficio que eu queria, porque a necessidade na roça e a falta de condições o impediram”.
Ao contratar alguém para um serviço, o papai Gottlieb tinha um segredo: os pretendentes não recebiam resposta de emprego antes que não tivessem almoçado ou jantado. O modo de servir, a maneira como deixavam a mesa e o asseio que apresentavam eram decisivos. Cinco ou seis candidatos nunca chegaram a saber, porque não recebiam serviço ou emprego. Mas o papai nunca foi enganado por quem que fosse dos empregados.
DABBERN: é a expressão que os judeus usavam para designar as suas orações. Muitas vezes alguns judeus pediam pouso na casa de Gottlieb Figur, quando víamos as cerimônias em suas orações matutinas. Também ao levar o leite à vila, víamos judeus em casa ou mesmo no caminho, com carroça parada na estrada fazendo suas orações.
A devoção deles era toda concentração, não permitindo que algo os desviasse do seu dabberra. Respeitavam ainda a recomendação do Velho Testamento usando uma miniatura e ara de madeira, altarzinho, na testa e na mão esquerda presa uma fita, tipo trena, com símbolos ou letras hebraicas, talvez as leis. Enliavam a fita na cabeça e no braço esquerdo firmando assim a ara e, na mão, o altarzinho. Ao repetir suas orações não se desviavam de sua concentração por motivo ou força alguma e, na estrada, não dava passagem a quem quer que fosse.
Aos sábados de manhã o Tab, ancião, reunia seus filhos de 5 a 14 anos onde, ele vestido com uma pala xadrez em amarelo e marrom e um barrete preto, examinava cada uma das crianças se sabia a lição de cor e dava lição de religião. As crianças não sentavam como estamos acostumados, mas andavam soltas pela sala e até conversavam enquanto outros repetiam sua lição. Igualmente os adultos reunidos não obedeciam a uma ordem restrita; alguns recitavam orações, outros conversavam e outros liam livros em voz alta: o seu dabberra era um murmúrio confuso.
Constatamos como os antigos falavam de uma Juden-Sclnde e como ela funcionava. Segundo a lei, os judeus mesmos não podiam sacrificar os animais ou as aves para consumo. Quando o Schecter, açougueiro, ou sacerdote deles não o fazia, pediam a algum estranho ou aos rapazes que vendiam leite que sacrificassem o animal sem decepar completamente a cabeça. Evitavam ao máximo a contaminação com banha ou carne de porco.


Motivos da imigração


        Não chegamos, a saber, qual o real motivo, mas a vovó Louise contou que o “vovô”, como era conhecido o Sr. Rudolf Figur, teria voltado certo dia para casa todo nervoso e desgostoso tendo dito: “Antes de eu cometer uma asneira ou uma injustiça, vou para a América, terra de liberdade e de progresso, onde em pouco tempo poderei me tornar independente e um grande proprietário”. Mas qual seria o motivo de seu nervosismo não disse. Parece que fora sorteado para o serviço militar, que era um serviço de sete anos sem voltar para casa uma vez se quer, e também recomendado a não receber noticias de familiares. Isto parecia ser pior do que prisão, pois ainda estava sujeito a risco de vida nas campanhas de repressão. Havia terminado o tempo de “Grande Privilégio” há uns 5 anos e o Imperador Alexandre III queria introduzir a forçar a russificação de todo o território russo. Uma das exigências era, para que os que dessem baixa tivessem dispensa do serviço militar, que deveriam adaptar um nome russo, isto é, “nacional”, como chamavam. Havia prenuncias de insubordinação e revolta contra as novas medidas em todo o império russo. Talvez fosse esse o motivo principal e último da resolução de emigrar. Mas também havia outro, não menos difícil e mais convidativo: eram muitos os agentes de emigração contratando interessados em procurar novas terras e bons empregos no Novo Mundo; uma vida que fosse livre e independente e onde tivessem a ventura de um enriquecimento rápido.
         Serviço Militar: Para escapar do serviço Militar, muitos jovens saiam antes de serem sorteados. Outros provocavam alguma ferida na perna, prensavam-se em uma solução de sulfato de cobre, o que nunca mais deixava sará-la. Temos visto isso no Tio-avô August Maass e em outros desses teuto-russos.
         Aqui cabe mais uma observação de que quase todos ou a totalidade dos atletas da Polônia, Ucrânia, Lituânia (Lietuva) e da Rússia, propriamente dita, tinham a aparência física do povo germânico e não se notando tipos físicos de magiares, tártaros ou asiáticos. Parece que os imigrantes, para formar a “Grande Muralha” contra os cossacos de Don e Zaparogos, no tempo de Catarina, a Grande, deixaram a uma característica genética em parte do povo russo.




O Primeiro Trabalho de Rudolf Figur

O primeiro trabalho, o senhor Rudolf conseguiu em uma mina de ferro, perto de Sabará-MG. A família ficou morando no Vale do Rio Doce, afastada alguns quilômetros do emprego, de onde a cada quatorze dias poderia visitá-la. A região e o clima eram muito diferentes do que já estavam acostumados. Muito calor, muita chuva e o que mais estranhavam era a quantidade de cobras, que a cada enxurrada vinham arrastadas pela correnteza. A vovó Loiuse, contava que certa vez passara por maus momentos com os dois filhos quando uma Urutu perseguida pelos seus cachorros veio até dentro da casa e se abrigou de baixo da mesa, fazendo-a se abrigar em cima da mesa por mais de uma hora até a cobra ir embora. Essas circunstâncias motivaram a mudança para outro lugar, e lá se foram para outro lugar, onde o clima fosse mais ameno e sem tantas cobras perigosas. E lá se foram para o Rio de Janeiro, para se incorporar a onda de imigrantes, principalmente russos e poloneses que migravam para o Paraná, onde o clima era mais favorável.
NOVOS RUMOS: embarcados em um navio costeiro, encontraram um ex-marujo alemão, que os desaconselhou a irem a Campo de Tenente, ou a uma das colonizações do Paraná. Na região haviam muitos polacos, russos e muito teuto-russos, conhecidos como russos-alemães, na Região da Lapa e Rio Negro, onde fundaram seus aglomerados como Friedrichtal e Mariental bem como bucovinos em Rio Negro e Mafra. Mas o seu novo amigo soube pegá-los em um ponto mais fraco, oferecendo uma opção melhor: São Francisco, Blumenau ou Joinvile, em Santa Catarina, onde já havia colônias alemãs a mais de 40 anos, com todos os recursos e mais possibilidades de emprego. A possível aquisição de terras por preços e condições muito favoráveis era bastante convidativa. Mas o que fazer se o resto do dinheiro que tinham era suficiente para comprar as passagens somente a te Paranaguá-PR? Também ali o novo amigo apresentou uma solução para chegarem até São Francisco. Eles deveriam esconder-se entre as bagagens do navio até que o mesmo zarpasse do porto e, quando estivessem em alto mar, seriam descobertos, mas a marujada não iria voltar para deixá-los no porto. Na primeira escala, porém, seriam postos em terra. Felizmente já estariam no ponto almejado embora devessem chorar e lamentar o seu azar fingido por terem perdido o destino. Os marujos os deixariam em São Francisco-SC com um sentimento de gozação, mas dando uma lição aos “gringos” para que conhecessem a esperteza dos brasileiros.
         Dito e feito deu tudo certo! Mesmo ouvindo alguns nomes impróprios e xingões dos marinheiros, mas fariam como se estivessem agradecidos por terem ajudado a chegar até lá. Como não sabiam o que os marujos esbravejavam, os ‘pretos’ sentir-se-iam satisfeitos em poder “xingar” bastante uns “burros alemães”, caroneiros e molestadores. Mas a família teve mesmo sorte. Quando desembarcados, os homens se safaram indo imediatamente para a cidade de modo a não serem alcançados pelos marujos para tirar algumas das poucas coisas que tinham como pagamento pela “carona”. As mulheres e as crianças pequenas chorando no cais não seriam molestadas pelos marujos. À noite os homens voltaram para buscar os seus familiares e os seus pertences (que não eram muitos), mas chegaram onde queriam. Logo encontraram uns “Landsmaenner”, patrícios alemães com os quais podiam entender-se bem, recebendo as primeiras orientações e ajuda, além de darem uma mão para estabelecê-los. Foram recebidos com alegria e contentamento, porque vieram mais “Landsleute”. Esses patrícios já um tanto práticos nas lidas e atividades agrícolas, os levaram por pinguelas, picadas, caminhos estreitos e tortuosos, através de matas cerradas até Jaraguá do Sul-SC, onde foram construir seu lar e seu futuro. Escolheram o lote levantando um rancho com lascas de árvores e troncos de palmitos, cobrindo-o com as folhas dos “palmídeos”, cujo miolo deu também o primeiro alimento. Havia abundância de peixes no rio. Também conheceram o “aipi”, aipim, cará, taiá e frutos como banana, goiaba e outros. Em pouco tempo já produziam tudo para subsistência. Pensavam em construir uma morada mais confortável, o que não seria difícil, pois manejavam bem as ferramentas e eram acostumados a lidar com madeira em sua terra natal. Sabiam aproveitá-la bem. O machado, o serrote, os machadinhos e o enxó deram forma e utilidade à madeira abundante. A nova colônia para onde vieram logo recebeu novos moradores. A orientação e a ajuda dos que já conheciam o Brasil eram de muita valia para os recém-chegados. Em poucos anos a sua “Tiefe”, como chamavam as linhas, era um lugar próspero e desenvolvido.
         Inicialmente a vida social deixava muito a desejar. Principalmente na escola, onde se apresentavam como “professores” elementos desqualificados e moralmente pouco recomendáveis. Eram soldados desertores, marinheiros fugidos, barbeiros e alfaiates bancorrotados, entre outros e eram sustentados pelos colonos, porém nada entendiam de pedagogia e educação. Esses elementos felizmente logo davam no PE, antes que pudessem ser penalizados. Com o correr do tempo isso mudou completamente e as escolas foram melhor aparelhadas com professores capacitados ministrando aulas. Por isso o pobre GOTTLIEB foi privado de instrução com tais “professores” vagabundos. Mal sabia assinar seu nome por frequentou três meses de aula. Além disso, tinha que ajudar seu pai na lida da roça e no sustento da família.
         Espiritualmente os protestantes eram servidos regularmente ainda que intervalos maiores por causa da distância, por pastores luteranos da “Gottes-Kasten Synode” sustentados por missões da Alemanha, mas eram pastores leais e fiéis. Só para citar um exemplo: o velho pastor Schuluenzen não só atendia Blumenau e Jaraguá, em Santa Catarina, como também atendia Rio Negro, Mariental, Friedrischstal, Papagaios Novos, Palmeira e outros lugares no Paraná.
         Para reforças o orçamento familiar e, com planos de emancipar GOTTLIEB, o filho mais velho, Rudolf Figur empregou-se na HERMANN WEEG. Classificava fumo, acondicionava manteiga e banha em barricas de madeira, empacotava carne seca para remeter essas mercadorias pelo Porto de São Francisco ao Rio de Janeiro. Com o ganho regular e as economias da família providenciaram a aquisição de terras para o filho mais velho que pretendia se casar, com 20 anos de idade, com Lidia Jubin de 19 anos.
         GOTTLIEB depois de 3 anos de casado, instalando-se já por conta própria, soube de novas colonizações em Ijuí e Erechim no Rio Grande do Sul, onde as terras sendo mais planas eram próprias para a cultura do trigo, milho, aveia, cevada, centeio e batatas, como na Rússia. Não custou muito para a família se mudar para essas regiões mais propicias às culturas europeias. De acordo com o plano feito GOTTLIEB com a família, seus sogros e cunhados, iriam se aventurar a viagem e explorar as condições e o ambiente. Depois de dois meses de viagem chegaram a Erechim. Nessa época também vieram outros parentes para a colônia de Ijuí o que atraiu os demais membros da Família FIGUR a aproveitarem as condições favoráveis e convidativas do Rio Grande do Sul.
         A escolha do lote de Rudolf Figur não foi difícil, pois viera com alguns recursos. Além disso, os filhos de Gustav, recém-casado com Ottília Schade, Emília, solteira, que logo casou com Gustav Jubin, Roberto e Alexandre, ambos solteiros, ajudaram na instalação da colônia (que seria onde hoje está instalada a nova prefeitura de Getúlio Vargas).
         Com personalidade, caráter, iniciativa de ação e visão prática não custou construir uma casa confortável e de boa aparência, demonstrando gosto pela estética. A casa chamava atenção de quem por lá passasse. Com trabalho e muita disposição as plantações mostravam capricho e desenvolvimento. Com boas colheitas, apesar de uma praga de gafanhotos ter devorado as culturas da primavera, mas que não foi motivo para desanimar. Após poucos anos, foi desafiado a tomar novas iniciativas. O progresso e o crescimento da vila tornaram premente e muito necessário o estabelecimento de um meio de transporte da Estação Ferroviária até o centro da vila, correspondendo a uma distância de 5 Km. Em pouco tempo os viajantes podiam contar com uma condução regular e cômoda. O Sr Rudolf Figur, conhecendo a fabrica de seges, ou jardineiras de Jaraguá-SC, importou dois desses veículos e constituiu uma “frota de transporte” de seges. No horário do trem de passageiros elas levavam os viajantes à Estação, ou de lá até a vila. Mas as viagens não se resumiam a esse trecho somente, também atingiam o interior e vilas ou cidades mais distantes, como Sananduva, Sete de Setembro, hoje Charua, Lagoa Vermelha e outras. O que chamava a atenção era a tal “Brautkutsche”, sege ou jardineira de noivas. Os que não queriam ir de carroça ou a cavalo até o casamento civil ou religioso alugavam um coche, isto é, a “sege nupcial” (sege=coche).
         Em 1923 Rudolf Figur vendeu a “frota” para a firma Bianchi, porque o filho Roberto havia se casado e o filho Alexandre não quis continuar no ramo de transporte de passageiros.

         Mecanizar a agricultura era o sonho de Rudolf Figur. Em 1925 ele comprou a primeira trilhadeira manual da firma Heidrich, de Montenegro-RS em condições muito favoráveis e boas. Ele não titubeou em adquirir esse mecanismo, tocado por um grande volante que 2 ou 3 homens moviam. Era o único da região, e muito admirado por muitos curiosos, que também experimentavam mover essa trilhadeira com bastante esforço e em compasso ritmado.

A Arrancada Para a Emigração


A arrancada propriamente dita aconteceu em uma noite, poucos dias após a resolução de deixar a Rússia e aventurar um futuro que parecia promissor. Parece que Rudolf Figur ainda estava morando com seus pais e por isso seria mais fácil a saída: primeiro, para desfazer-se de seus pertences, pois poderiam levar somente aquilo que fosse possível carregar nas costas, num carrinho de mão, ou em um trenó puxado por um cavalo. A bagagem deveria ser mínima para uma saída supostamente clandestina. A certidão de casamento só foi tirada cinco anos depois na Secretaria da Paróquia, como demonstra a cópia da mesma. A saída não deveria ser notada logo para que não houvesse perseguição e prisão por tentativa de fuga. Talvez nem os vizinhos mais próximos tivessem notado a ausência de Rudolf, da esposa e do filho nos primeiros dias. Quando chegaram perto da divisa com a Áustria encontraram um amigo que os orientou na maneira de passar para o outro lado da fronteira sem serem molestados ou presos e mandados de volta. A orientação era a seguinte: cada guarda de fronteira, alternadamente, um austríaco e um russo, tinham dois quilômetros para vigiar. Ambos deveriam ir na mesma direção, ou norte, ou sul, para não se encontrar e combinar algo contra o regulamento. Os tranfugas deveriam se esconder perto da fronteira e observar qual seria o melhor momento para passarem ao outro lado. Uma vez atravessada a fronteira e a certa distância eles não seriam mais perseguidos e molestados. Dali para adiante facilmente encontrariam um agente de emigração para agenciá-los para trabalho ou compra de terras na América e arrancariam passagem até Trieste ou Gênova de onde seriam embarcados para a América. Assim o Sr. Rudolf Figur, sua esposa e seu filhinho primogênito, o Gottlieb, com pouco mais de um ano chegaram à cidade de Trieste onde foram embarcados num navio genovês, o Julia. Depois de seis semanas chegaram a ilha das Flores, no Rio de Janeiro, porém com um filho a mais, que nascera durante a viagem. O pequeno Gustav não sabe dizer, mais tarde, se nasceu russo ou brasileiro. Como foi para muitos filhos daquela época, era fácil escolher a cidadania, mas o Gustav tornou-se automaticamente brasileiro pela “grande nacionalização”. Depois da Proclamação da República em 1890, a nova Constituição Brasileira estabeleceu para todos os estrangeiros que dentro de certo prazo não registrassem ou reclamassem a sua cidadania, que, por força da lei, eram considerados brasileiros. A mesma coisa aconteceu com Gottlieb, que era eleitor, feitor de estradas, capataz, etc., até a “nacionalização” que o privou do direito de ser brasileiro, na Segunda Guerra Mundial. Apesar de já ter filhos reservistas, era considerado “russo” e obrigado a requerer a Carteira de Estrangeiro. O que fazer, se as leis brasileiras eram maleáveis na interpretação de certos funcionários incompetentes mas supostamente importantes. Isso nada mudou a vida e o caráter do Gottlieb que, em sua integridade moral continuaram dando sua contribuição para que o Brasil crescesse e se desenvolvesse respeitando os direitos humanos e internacionais.


Os Ancestrais Maternos


A história da família JUBIN tem estreita relação com os “exultantes”, desterrados ou excomungados luteranos de Salzburg, dos quais eram descendentes.
Quando em 1731-32, o Arcebispo de Salburg ficou sabendo que ainda existiam muitos “protestantes” em seus domínios diocesanos, prometeu que: “Antes que permanecesse um protestante em seu domínio, preferia que as terras produzissem cardos e espinhos”. Em 24 de novembro de 1732, no início do inverno ordenou a todos que não tivessem bens imóveis que, se em oito dias não voltassem ao “seio” da igreja, deveriam deixar Salzburg. E ordenou àqueles que tivessem bens imóveis que teriam um ano pra resolver: voltar para o catolicismo ou deixar Salzburg somente com os bens que pudessem levar num carrinho de mão ou carregar nas costas. Foram mais de 20 mil luteranos obrigados a deixar as terras do Barão (Freiherr) Leopold Anton Von Fitminiann sem roupa suficiente, sem indenização dos bens que ninguém queria ou deveria comprar. Os mesmos bens acabaram sendo distribuídos entre os “fiéis” ou “convertidos” católicos remanescentes. Dentre aqueles que preferiram deixar os bens materiais e escolhera pobreza no estrangeiro, estavam os nossos ancestrais. Escolheram viver livremente sua fé e convicção religiosa. Eram os antepassados de Samuel Jubin e Rosalia Schmolente, ou Schamulandt, talvez Schaumuland. Esses patriarcasde Salzburg foram recebidos e assistidos em fartura pela população protestante. Foram mais tarde transferidos pelo Rei Frederico I para as novas colonizações, nos domínios do cavaleiros Teutônicos da Prússia Oriental, Polônia, Lituânia e Bielo-Rússia, onde com auxílio do governo alemão puderam se estabelecer vivendo sua fé com liberdade.
Não temos notícias mais acuradas quanto a vida que esses  novos imigrantes levavam, como foram tratados q quais os lugares exatos onde se estabeleceram. A Vovó Rosália apenas contava que eram descendentes dos “Salzburgianos” e guardavam bem o “Sendbriefe de Joseph Schaitberger”. Ele os escreveu do exílio de Nuerenberg onde se refugiara da perseguição dos “fiéis católicos” de Augsburg, de 1693 até 1732. Vovó tinha essas cartas circulares (Sendbriefe) e, ainda em idade avançada era sua leitura predileta. Guilherme Figur tem um exemplar que ela usava. Sabemos que Vovó Rosália nasceu em Lodz e se criou na rua “Nemnetzkaia Uliza”, rua do Quarteirão dos Estrangeiros, alemães, ou “gringos”.
Da história familiar do Vovô Samuel Jubin não temos nenhuma referência. Mas a vovó, quando estava disposta, contava o seguinte: quando ainda tinha menos de um ano, na revolução dos fanáticos poloneses, os soldados vieram procurar dinheiro e joias dos “Nemntz” matando os estrangeiros que encontravam. Ela ainda mostrava uns quadros da perseguição fanática e cruel, mostrando os soldados abrindo os ventres das mulheres grávidas, espetando as crianças com a lança e as atirando diante de porcos e cães. Trucidavam homens e matavam quem quer que encontrassem. Ela, com menos de um ano, escapara milagrosamente. Quando os “patrícios” reviraram a casa, tombaram o berço onde estava dormindo. Ficou escondida entre travesseiros e cobertores. Uma tia a encontrou depois de uma hora e a salvou. Três ou quatro anos mais tarde, em uma nova onda de perseguição, ela e sua tia de esconderam debaixo de cobertas e, quando os soldados as encontraram exigiram “penunse”, dinheiro da tia, mas como ela nada tinha, encostaram as bainetas e sabres no seu pescoço, exigindo sempre “penunse” até a ferir. Ela, a vovó, debaixo da coberta espiou, e depois sempre lembrava “nada é mais feio e assustador que cara de polaco brabo”. A vovó nunca falou de seus pais, mas parece que foram sacrificados na primeira onda de “nativismo polonês”. Só falava da tia que a criou.
Dos Jubin, só temos registro que a Rosina (que não sabemos quem é) casou-se com Martin Reimann, eque em 1910 emigrou para o Brasil radicando-se em ijui-RS, na linha 8, onde ainda vivem os seus descendentes. O vovô Samuel veio ao Brasil em 1889, instalando-se em Jaraguá-SC, de onde em 1910 mudou-se para Erechim-RS, hoje Getúlio Vargas-RS.



Namoro e Casamento



O namoro e casamento eram bastante restritos e para nossos dias impossíveis. Quando os pais achavam que o filho era núbil, eles escolhiam a futura nora, às vezes em companhia do “pretendente”. Outras vezes eles primeiro exploravam a situação, encaminhavam o encontro e, se desse certo, em poucas semanas celebrava-se o noivado e, depois de três semanas, o casamento. Os noivos davam-se por satisfeitos por poder formar o seu próprio lar. Mas essa construção do novo lar não ia tão rápida, pois era difícil construir uma casa própria e, como talvez o noivo tivesse recebido seu quinhão do “Senn”, terra para trabalhar por conta, teria que trabalhar com o pai, e a nora iria se enfronhar bem na vida familiar dos sogros. As vezes aconteciam que dois ou três filhos casados continuavam morando na casa dos pais, mas tudo em harmonia, organizado pelo pai, “patriarca”. Não se ouvia falar muito de sogra brava com nora rabugenta. Era tabu e pronto. 

Educação no Lar

A educação continuava no lar e ficava a encargo dos pais. Durante as noites longas de inverno as crianças exercitavam-se em leitura, caligrafia e contas. Quando maiores, as crianças realizavam trabalhos manuais para se profissionalizarem e alcançarem a emancipação.
As filhas aprendiam a fiar os fios de cânhamo* e linho, a manejar os teares para preparar o pano necessário à família, sacos e panos de eira e todo o negócio ou “Wirtschaft”. Começavam a preparar o seu enxoval para eventual casamento. O enxoval constava tanto de peças de roupa de cama, tantas peças de vestuário e mais uns panos de louça e parede, com o que mostrava a sua capacidade. De 18 a 20 anos, a moça se tornava núbil, apta para casar, se soubesse as artes domésticas, a arte culinária, a padaria e tivesse completado o seu enxoval.

Os filhos não tinham muita folga, precisavam se aperfeiçoar nos conhecimentos relativos ao oficio de agricultor e futuro senhor. Eles deveriam saber lidar com todos os instrumentos da agricultura, prepará-los e consertar os mesmos, tanto os arados, as carroças, correames para os animais, manejar machados, a machadinha, o enxó para madeira, como outras ferramentas necessárias para preparar as madeiras para construção e, como marceneiros, preparar os seus móveis e apetrechos de mesa, isto é, colheres de pau, bacias de madeira, gamelas, rolos de mesa, etc. A falta de domínio dessas artes todas podia retardar as declaração de ser núbil, em geral aos 200 ou 22 anos.

Vida Familiar e Atendimento Religioso



A vida familiar, o atendimento religioso e instrução eram totalmente uniformes em todas as aldeias e vilas. Os filhos recebiam instrução para ler e escrever em cãs. No inverno, aprendiam em conjunto com o “Kuester”, diácono da vila, que dava aulas e principalmente instrução religiosa e canto. Esse diácono ministrava aulas durante o inverno quando os filhos não podiam ajudar os pais na lida rural, desenvolvia cultos de leitura, ensaiava cantos, instruía os confirmados, realizava os batizados de emergência e os enterros. O pastor comparecia só três a quatro vezes no ano quando ocorriam os cultos, celebrava a Santa Ceia, realizava os casamentos e as confirmações dos catecúmenos. Nessas ocasiões verificava os registros de todos os casamentos e batizados expedindo as devidas certidões que tinham valor civil e religioso ao mesmo tempo. Geralmente o pastor permanecia dois dias para completar a visita e concluir as atividades nessa aldeia. Eram dias de festa.

UMA LUZ NAS TREVAS



Uma História Que Levou Meio Século Para Ser Contada.
Este é um documentário histórico e comovente que revela o espírito e a fé do povo alemão que viveu na região do rio Volga, na antiga União Soviética. Esses alemães emigraram para essa região durante o tempo da czarina Catarina, a Grande, em busca de um sonho de liberdade que nunca se realizou.
Em 1941, o premier soviético Joseph Stalin os expulsou de suas casas e os mandou aos campos de trabalhos forçados. Milhares morreram de fome ou de frio; outros tantos foram mortos pelas autoridades soviéticas.
"Uma Luz nas Trevas" nos traz o testemunho de sobreviventes dessa triste tragédia. É a história de famílias que foram separadas, e seus pais e filhos enviados a diferentes campos de trabalho. A perseverança dessa gente em meio à sua horrível experiência, encherá de coragem e inspiração todos os que conhecerem as suas heroicas lutas.
A luta dos alemães do rio Volga não terminou. Uma fé inabalável continua a ser uma âncora em suas vidas. A fé continua sendo UMA LUZ NAS TREVAS.

Nossos antepassados possivelmente estiveram entre estes.
Vale a pena assitir!

Dascha Russa

        A Dscha Russa, casa rústica, ou choupana dos moradores primitivos é uma imitação feita pelos primeiros colonos alemães, na Russia Meridional, das casas que o cassacos faziam com leivas de gramado cortadas e empilhadas entre 4 postes de madeiras e cobertas por capim. Ela constava de 2 compartimentos com 8 m x 6 m, onde recolhiam os pertences: um compartimento servia como cozinha e sala de estar e o outro como dormitório, onde toda a família dormia junto numa cama "pritsch", a qual deveria dar um espacinho para os animais domésticos, cachorros e gatos, com os hóspedes não convidados, as pulgas, percevejos e piolhos. Dalo veio o ditado "Was den Wert hat wie eine Laus, das mimm mitt nach Haus". O que tem valor de um piolho, leva junto para o teu recolho (casa).      
       Mas os imigrantes alemães trataram logo de construir habitações mais confortáveis com espaço suficiente para as suas ferramentas, tulhas de cereais, abrigo para os animais e eira coberta para malhar no inverno o seu trigo, cevada, centeio, e aveia recolhidos no outono quando havia falta de tempo na roça.

Primeiras Moradas ou Abrigos

      As primeiras moradas ou abrigos eram toscos e simples pois faltavam madeiras e material de construção. A casa de 8 m x 6 m, com paredes levantadas com leivas de grama e empilhadas qual tijolos, era coberta com grossa camada de capim ou gramínia de alto porte para proteger os colonos do sol e principalmente do frio rigoroso de um inverno de quase seis meses. A casa constava, geralmente, de dois cômodos de 6 m x 4 m, um servia como cozinha e silo de cereais e outros servia de dormitório da família. Para abrigos dos animais, vacas, cavalos, porcos e galinhas, construía-se outra construção ao lado da residência e  próxima, também de leivas, a qual os protegia dos ataques das matilhas de lobos e hienas famintas que no inverno rondavam as casas. Após feita a semeadura na primavera, os homens geralmente iam mais longe onde encontravam mato e preparavam a madeira para a casa (Wohnnung) definitiva, que geralmente constava de uma "coberta", quer dizer: tudo debaixo de uma cobertura, numa construção de 25 m, ou 30 m x 15 m, servindo como moradia da família, estrebarias, pocilga e uma eira de 8 m x 6 m onde, quando houvesse tempo, se malhava os cereais colhidos no outono quando o mesmo faltava.

O Grande Plano de Benefícios

        O plano visando a colonização das províncias meridionais, especialmente da bacia do Rio Volga (Wolga), Woltania (Wohltnia) e Ucrânia são os que mais nos interessam. Um grande plano prometia aos agricultores alemães: cem anos de isenção de impostos, quaisquer tributos e serviço militar, liberdade para conservação da religião, vivências culturais e respeitos às suas escolas, desde que cultivassem as terras e como regra geral, se subordinassem as leis russas.
           Em 1775, após a guera dos Sete anos que envolveu a Alemanha, Áustria, Holanda, França e outros países, os agricultores cansados de tantas guerras, destruições e serviço militar, aceitaram aos milhares o grande beneficio que garantia cem anos de paz e prosperidade e ainda uma ajuda para os mais remediados se estabelecerem. Em pouco tempo pipocaram aldeias e novas cidades na Russia Meridional que produziram grãos para toda a Europa, como todo mundo dizia. E, provavelmente, entre esses imigrantes e novos proprietarios se encontrassem ancestrais nossos, talvez já os da colonização alemã de 1734 na Lituânia, como mais tarde os abandonados pelos exércitos napoleônicos de 1812-13.

Os Cassacos de Don

 Os Cassacos de Don sob a chefia do seu General Pugatchev molestavam e conquistavam o norte da Russia quando foram rechaçados, dominados ou perseguidos até nos confins do seu domínio. O General russo favorito, Potenquim, dominou toda região de Volga, Don, e conquistou territórios dos cassacos de Zaparogos nas costas do Mar Negro, em 1773-74. Os mesmos não voltaram mais e as terras ficaram à disposição de uma grande colonizadora. O General Poniatowski derrubou as barreiras territoriais entre Lituânia, Bielo-russia e Polônia, incorporando todos esses territórios ao império da Russia. Desse modo facilitou a migração de alemães do norte enviados pelo rei prussiano Frederico I para o Sul a fim de ocupar terras mais férteis e apropriadas para a agricultura das regiões do Volga, Ucrânia, Bessarábia, Moldóvia e Bucovina.
Map of Russia - Volga Federal District.svg
Região de Volga

A Rússia agora, sob o reinado de Catarina, a Grande, (Sofia Augusta Frederica de Anhalt-Zerbest) foi divida em 50 governos (governamentos), subdivididos em províncias, círculos ou circuncisões e distritos. A reforma politica, administrativa, econômica e agrícola levou ao grande plano de benefícios.




A Colonização na Russia

A colonização na Russia pelos alemães tem algo que interessa a história da nossa família. Quando o Rei Frederico II da Prússia transferiu para a Prússia Oriental, Lituânia e Polônia, os "Exilantes Luteranos", expulsos de Salburg, a fisionomia geográfica da Europa era bem diferente relativamente ao que conhecemos hoje. O Grão-ducado da Lituânia em 1410 abrangia quase toda a Polônia, Letônia e Bielo-Russia, entre os rios Vístula, Dnieper e Don, desde o Mar Cáspio até o Mar Negro, e as diferentes incorporações de territórios modificaram completamente a fisionomia geográfica. A região que mais nos interessa inclui Polônia, Lituânia, Voltnia, Ucrânia e a região do Rio Volga. A jurisdição politica sobre esses territórios e países modificou-se várias vezes pela ocupação e conquistas territoriais por diferentes sistemas governamentais. Parece que essas mudanças territoriais ou de autoridade facilitaram a migração dentro desses territórios. A facilidade em se manter o idioma original, bom como a mescla dos mesmos favorecem o intercâmbio. Certos costumes se tornaram comuns contribuindo para uma assimilação mais fácil.



     Mapa
           Rio Vístula, Polônia.                                 Bacia Hidrográfica do Rio Vístula.

Os Soldados de Napoleão Bonaparte


         A outra versão seria a seguinte: Napoleão Bonaparte, em 1812, resolveu conquistar a Rússia que não se sujeitava ao bloqueio Continental. Para o seu exército de 650 mil soldados foram arregimentados 100 mil nas províncias da Renânia e 20 mil prussianos. Possivelmente foram incluídos muitos huguenotes refugiados na Alemanha, entre os quais também talvez um de nossos ancestrais. Na Batalha do Bodorino, conhecida como Batalha do Moscou, depois de 14 de setembro, muitos soldados arregimentados debandaram do exército Francês procurando refugiar-se da perseguição e do frio intensos em casas de colonos da origem alemã. Após saquear Moscou, com a destruição por incêndio de nove décimos da cidade, Napoleão se viu forçado a abandonar o seu plano. Fugiu para a França, assediado pelos cossacos russos, com apenas 40 mil soldados combatentes e com mais 30 mil doentes, feridos e exaustos os quais abandonava na fuga. Antes da "Grande Retirada" os russos haviam destruído tudo; casas, plantações, alimentos e agasalhos e, sem reforços, os franceses foram dizimados. Montes de defuntos de soldados e de cavalos cobriam os campos gélicos a uma temperatura de 18 graus abaixo de zero. A ponte de quase 200 metros construída ás pressas sobre o Rio Berezina não dava passagem aos 40 mil soldados, de modo que milhares foram empurrados nas águas gélicas do rio. os que conseguiram passar diziam: "O Berezina parecia um caudal de sangue francês, tantos foram os que ali morreram estupidamente".
        Entre os que conseguiram passar a ponte havia um que, ou foi abandonado ou refugiou-se em alguma casa na Lituânia, onde mais tarde aparece como um de nossos ancestrais. Na fuga provavelmente levara um bornal ou sacola com jóias e moedas de ouro, roubados em Moscou. Abandonado como muitos por Napoleão, preferiu fugir a morrer com as presas e com ouro nas mãos. Isso lhe seria de muita valia para sobreviver e conseguir asilo mais facilmente. Essa hipótese de bornal de ouro é bastante plausível, porque mais tarde em Vilna os Figur foram proprietários "Besitzer" e não somente moradores, "Ansiedler" (em bom português, sem-terra). Isso permite supor que tivessem recursos para se estabelecer, porque não se conseguia facilmente ser "Besitzer" de acordo com as circunstâncias e condições da época. A diferença básica entre proprietário e morador estava no seguinte: o primeiro era independente, o segundo dependia ou do senhor feudal ou tinha algum ganho fora de sua propriedade para conseguir um sustento suficiente. Trabalhava como meeiro ou assalariado do senhor feudal. Parece que August Figur seria um filho deste sobrevivente do Rio Borezina e um proprietário remediado, se não abastado.


A Origem do Clã dos Figur

Não é fácil delinear a origem do clã dos FIGUR. Muito se perdeu por causa das convulsões politicas, religiosas e sociais que tiveram de superar. Ainda é importante conseguir manter características e traços familiares e o essencial do histórico da família o qual se conservou durante quase trezentos anos. As perseguições religiosas, as convulsões politicas  e a devastação produzida por um fanatismo étnico e religioso e, ultimamente, a destruição de muitos arquivos e registros paroquiais e distritais pelo comunismo devastaram a história religiosa e étnica deixando pouco material para pesquisa. Apesar de tudo isso, o pouco de documentos e tradição oral dos antepassados, tanto da parte paterna como da materna, em resumo e sucessivamente nos deixa o que segue.
OS HUGUENOTES NA FRANÇA: A perseguição dos Huguenotes na França refletiu-se na nossa história familiar. Não sabemos exatamente quando e para onde fugiram os Huguenotes perseguidos tão tenazmente na França a ponto de milhares, para não dizer milhões, que tiveram de se refugiar em países vizinhos onde a perseguição religiosa não teve foro. Assim foram muitos protestantes para a Inglaterra, Holanda, Suíça, e a maioria para a Alemanha ou América.
       Os Huguenotes que se refugiaram na Alemanha foram mais ou menos distintos: os da região de Paris e norte da França, se refugiaram mais nas províncias da Renânia (Rheinland); os do sul de Cevennes, La Rochelle, Mountauban, Nimes e outros, a maioria artesãos, tecelões, fabricantes de meia, técnicos em agricultura e horticultura, mais se aglomeraram em Brandenburgo e Prússia, ao redor de Berlin e Postdam.
       Aqui o Rei Frederico os contratou para drenar os banhados ao norte da cidade e na construção do canal Oder-Havel, conhecido como Oderbruch, numa extensão de quase cem quilômetros. Ainda hoje as igrejas da Hollander-Viertel e Franzosen-Kirche lembram as perseguições sociais e religiosas dos Huguenotes refugiados. Provavelmente entre estes se encontravam os nossos antepassados. Naquela época os refugiados (Fluechtlinge), também conhecidos como Fugues ou Fugitivos, por motivos óbvios, possivelmente omitiam o seu nome. Resultou, por corruptela, o nome Figur.
Canal Oder-Havel
         O nome Figur apareceu pela primeira vez em registro de nascimento e casamento na década de 1850, em Wilnus, Vilna, Capital da Lituânia, como temos visto em documentos. A vovó Louise ainda contava que antigamente talvez o nome fosse Wieger, Vigor, mas começando a ser registrado com um nome "mais bonito": FIGUR. Pode ser que alguns ancestrais tivessem se mudado com a colonização da Prússia Oriental, Polônia, Curlândia, Lituânia e Bielo-Russia, que em anos anteriores  foram domínios dos "Cavaleiros Teutônicos". O Rei Frederico da Prússia, depois da expulsão dos luteranos de Salzburg em 1732, colonizou as províncias do Bálico, onde outros além da dos salzburguenses encontraram meios de subsistência e liberdade para viver a sua fé e convicção. Entre esses "exilantes" talvez já se encontrassem alguns ancestrais. Existe outra versão que é mais provável e lógica pois combina com as tradições oras e de outras fontes.


Polonização (Parte II)


Vejamos apenas alguns exemplos dessas incorreções de grafia e pronúncia. Na certidão de nascimento de um cartório distrital consta: ADOLFO CURCH, mas na certidão de batismo, ATALIBA KRUG. Outro exemplo: JOSÉ DOMINGO BIERRING ou JOSÉ TOMINGA PERRIN; também a SUELI foi registrada como ZWILI; o ANÉSIO como NÉSCIO (IGNORANTE).
        Não precisamos ir longe para encontrar tais absurdos: GUILHERME FIGUR recebe cartas, bilhetes e recados com os seguintes apodos CULERMO VEGUA, GILERME VIGUA ou VIGOR ou FIGO. Felizmente essas novas criaturas mal nominadas entraram não só no registro de livros e atas das comunidades ou nos cartórios de registro civil, como também no histórico das famílias. 
             Descobrir o nome original, as vezes, é difícil e complicado. As pessoas encontram dificuldades ao tentarem comprovar a filiação ou parentesco, principalmente em casos de herança.
            Para entendermos melhor a situação devemos retornar um pouco na história daquelas regiões da Russia. Antigamente o Grão-ducado da Lituânia compreendia os territórios do Mar Bálico até o Mar Negro, entre os Rios Volga, Vistula e Dnieper, compreendendo: Lituânia, Letônia, Bielo-Russia, Polônia, Ucrânia e Bessarábia. Mas na grande conquista de 1764-74, ao reprimir os cossacos de Don e Zaparogos, o general favorito da Catarina II, Potenkin, os derrotou completamente de modo a nunca mais procurar molestar os territórios conquistados e, com a "Grande Muralha", isto é, a colonização por agricultores, garantiu-se o sossego à Russia. O outro general preferido foi Stanislaw Poniatowski que conquistou a Bielo-Rússia, a Polônia, até o Rio Vistula (Weichesel), a Lituânia, a Cuelândia e a Letônia, incluindo a Volinia. Essas conquistas derrubaram muitos obstáculo e facilitaram as migrações internas do norte para o sul e nem mesmo diferenças linguísticas impediram maior intercâmbio entre regiões. Os agricultores que mudavam do norte para as novas paragens geralmente conseguiam algum recurso, apoio e ajuda daqueles que há masi tempo já ocupavam essas regiões. Encontraram gente da mesma origem, crença e costumes. Essas Migrações produziram um surto de progresso com estimulo às iniciativas em todas as atividades.
        Parece que nossos antepassados eram bem situados, pois documentos os registram como proprietários, isto é, independentes economicamente. Não dependiam de senhores feudais (Groszbaue) ou latifundiários como os moradores (Ansiedker).
VOLINIA ra uma região que compreendia a parte do sul da Polônia e, em certas épocas incluía quase toda a Ucrânia e parte da Bielo-Russia. Nessa região localizava-se o complexo de povoações, vilas e cidades onde os ancestrais tinham o seu domínio. Os documentos nos lembram de Rhosischidsche, Kraschnach, Lutz, em Lublin que ficava a duas cercanis de Kiev, capital da Ucrânia, ao norte de onde hoje se encontram Retschitsa, Tschernigor, a atual Tschernobil, Konotov e outros dentro do governamento de Lublin. Falavam, os antigos, também de Kharkow e Saratow como centros de maior comércio e maior progresso da região.

Polonização (Parte I)

Esta assimilação foi feita de dois modos: a) por persuasão (as vezes meio forçada) ao adaptar um novo nome ou traduzindo-o para o polonês ou russo; b) automaticamente e sem o consentimento do interessado. Da noite pro dia a pessoa aparecia com um novo nome, principalmente com os reservistas do serviço militar onde era automática a adoção de um nome "nacional". Assim temos como exemplo: STEIN=CAMEN ou KAMINSKI; SCHOEN = SOSCHINSKI; BROT = CHELBOSKI; WAGNER = WIZICKI; FELD ou  FELDEMANN = TSABATKA ou SABKA; KRUMM = KRYWWSKI ou CRIZYWOWIRSCH; MEHL = MELNICK; MELNICK; HERRMANN = HERMAKOWITSH; HERMANN = HERMAKOWITSCH; KAISER = KLUT ou KLUTSCHINSKI; PAPPEN ou PFAFF = POPOVIC; KRIEGER = KRIENKO ou CHRITSCHENKO; JAKOB =  JAKOBOSKI; HAUSEN ou HAUSR = DOMASTIC; PETER = PIETROWSKI ou PIETROWISCH; FEDER = FEDEROFF; MAHLER = MALINKOSKI ou MAIKOSKI; RAD ou RAEDER = RADECK ou RADETZKI; SCHADE = SCHADEKA OU SCHADEKA; OU SCHADECK; VOLKER = LUDKAIOWITSCH e outros. queremos lembrar que não se pode generalizar todos os nomes, mas muitos são explicaveis desta forma.
         Não foi só a russificação ou polonização que assim procedeu. Vejamos que no inglês aconteceu e ainda acontece da mesma forma: SCHNEIDER = TAYLOR; SCHREINER = CARPENTER; VOGEL = BIRD; SILBERSTEIN = SILVERSTONE; BATTENBERG = MOUNTBATTEN.
       Mas não é necessário ir tão longe, pois a nosso redor e diariamente encontramos exemplos semelhantes. Se examinarmos os casos são também dois motivos: a) ignorância; b) acomodação.
Os exemplos mais plausiveis da acomodação são patentes: APPEL ou APFELBAUM = MACIEIRA; BACH = BAQUES ou BACKES; BERG ou BERGER = MONTE; BRACHT = BRAGA; LAGE = LAGS; MAURER ou MOHR = MOURA; SCHAUMBERG = CHUMBA; PFEFFER = PIMENTA ou PIMENTEL; MAIER = MAIA; WIEZER = VICENTE; FRAGER = FRAGA, etc.
         Não se deve generalizar essa explicação para as alterações de nomes ou as formas como os novos nomes surgiram. Em muitas situações a má grafia ou a pronuncia incorreta das palavras bem como dos dialetos de diferentes regiões provocaram alterações de nomes. A irresponsabilidade, a leviandade, a falta de cultura ou desatenção na correta grafia da nomenclatura ao preencher os registros e atestados também colaboraram para modificar muitos nomes.

Continuação...


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